sábado, 29 de julho de 2017

BRASIL DE POLÍTICOS VENAIS E DE UM POVO SEM CONHECIMENTO POLÍTICO



Favas contadas

Até mesmo os opositores de Temer dão como certa a vitória do presidente no plenário da Câmara, que vai decidir se a denúncia por corrupção contra ele deve ser encaminhada ao STF

O recesso parlamentar foi especialmente fatigante para o presidente Michel Temer. Além de ter de empacotar medidas controversas na área econômica, nas duas últimas semanas ele dedicou parte importante de sua agenda, inclusive os finais de semana, para intensificar o cortejo a deputados e lideranças partidárias. Como muitos deles estão longe de Brasília, o peemedebista passou horas pendurado ao telefone tentando, mesmo à distância, conquistar aliados para conseguir rejeitar na Câmara a denúncia de corrupção passiva apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra si. Ele é acusado de receber propina da JBS em troca de uma solução de problemas da empresa com a Petrobras e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A matéria deve ser apreciada na próxima terça-feira 2. Segundo interlocutores do presidente, ao cabalar votos destinados a sepultar a denúncia, Temer ouviu demandas das mais variadas: vão desde os já repisados pedidos de liberação de emendas e de cargos até a solicitação de selfies e gravações em vídeo para prefeitos interessados dar uma turbinada na imagem – acredite, demonstrar proximidade com o poder rende votos, muitos votos. Em ano pré-eleitoral, é tudo o que mais desejam os gestores municipais. Hábil articulador político, Temer sabe como poucos recitar palavras capazes de soar como música aos ouvidos dos políticos. O esforço não tem sido em vão. Pelo que indicam os mapas feitos pelo chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, o governo tem apoios de sobra para enterrar a primeira denúncia do procurador-geral, Rodrigo Janot, contra Temer. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que também passou a maior parte de seus últimos dias em Brasília e é quem vai presidir a sessão de apreciação da denúncia, vaticinou a interlocutores: a primeira batalha do presidente no Congresso já foi vencida. É favas contadas. Mesmo os mais empedernidos oposicionistas já jogaram a toalha – ao menos nesse primeiro round.
TROPA DE CHOQUE Beto Mansur faz parte da operação destinada a salvar o mandato de Temer (Crédito:Ueslei Marcelino)
Ou seja, Temer pode não ser um presidente popular, o governo pode não ser bem avaliado pela população, mas ele é bom de voto no Legislativo e, ao contrário dos estertores da gestão Dilma Rousseff, consegue controlar as rédeas da governabilidade. Para a denúncia prosseguir no Supremo – e, consequentemente, Temer ser afastado do cargo por seis meses – são necessários 342 apoios na Câmara. Qualquer resultado diferente, incluindo uma abstenção em massa, beneficia o peemedebista acusado por Rodrigo Janot de ser o destinatário final de uma mala de R$ 500 mil, portada por seu ex-assessor Rodrigo Rocha Loures. É o que acontecerá, salvo uma hecatombe.
Na quinta-feira 27, sites que monitoravam a indicação dos votos dos deputados, mantidos por artistas e intelectuais refratários a Temer, indicavam apenas 207 votos pela continuidade do processo criminal contra o presidente no Supremo Tribunal Federal (STF). Àquela altura, havia 147 indecisos e 159 apoios a Temer. Pelo sim pelo não, o governo raspa o cofre. Na tentativa de assegurar a vitória, sem sobressaltos, o governo liberou R$ 15 bilhões em emendas parlamentares. Com o triunfo na Câmara, Temer poderá retomar sua agenda econômica pelo menos até a apreciação de nova denúncia contra ele por obstrução da Justiça a ser feita pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
NÃO SERÁ DESTA VEZ Rodrigo Maia vai conduzir a sessão que deve desautorizar o STF a processar o presidente (Crédito:Jorge William)
O PREÇO DA CRISE
O adiamento de reformas estruturantes, como a da Previdência, já tem custado caro ao País. De acordo com dados do Ministério da Fazenda, deixarão de ser economizados R$ 18,6 bilhões se a proposta só for aprovada depois das eleições de 2018. A falta de dinheiro já tem afetado as ações da Polícia Federal – não bastassem os problemas já conhecidos com as confecções de passaportes, que só agora começam a ser normalizadas, em doses homeopáticas. Na última semana, o Ministro da Justiça, Torquato Jardim, entoou o sinal de alerta. Segundo ele, após os cortes e contingenciamentos, a Polícia Federal não dispõe de verba suficiente para realizar todas as operações necessárias. Para continuar a operar, as mais importantes serão selecionadas. Em português claro: a Lava Jato será prejudicada. O presidente Temer já foi informado sobre o problema. “Tenho que ser honesto, sincero e transparente. Poderá implicar em processos seletivos de ações, não realizar todas as operações ou não realizar em suas extensões totais, mas apenas parcialmente”, afirmou o Torquato. Na mesma entrevista, o ministro disse que o contingenciamento aplicado à PF foi de R$ 400 milhões.
Com o objetivo de economizar R$ 1 bilhão por ano, o governo prepara uma Medida Provisória com um Plano de Demissão Voluntária (PDV). A medida é polêmica porque pode ter efeito contrário: retirar do governo exatamente os melhores quadros, já que os que pouco produzem não terão coragem de sair de um emprego com estabilidade para se aventurar na iniciativa privada em pleno momento de incertezas econômicas.
BASTIDORES Eliseu Padilha trabalha em silêncio para garantir a vitória de Temer no plenário da Câmara (Crédito:Pedro Ladeira/Folhapress)
O dia “D” de Temer
Como será a sessão em que o mandato do peemedebista estará em jogo:
Início
9h é o horário previsto para a abertura da sessão extraordinária na quarta-feira 2 sobre a continuidade ou não do processo contra Michel Temer no Supremo Tribunal Federal (STF)
Discursos
Nas tribunas, parlamentares poderão debater a denúncia contra Temer na parte inicial
Encaminhamentos
Nos microfones, os líderes partidários encaminharão os votos contra ou a favor da continuidade do processo contra Temer
Mesa
Na Mesa, a sessão será conduzida pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia
Início da votação
A votação pode começar quando houver 342 deputados registrados com presença no painel da Casa
“Sim” ou “Não”?
Para prosseguir com o processo contra Temer, os deputados têm de votar “Não” ao parecer da CCJ que pede o arquivamento do processo
Continuidade
Para que a denúncia contra Temer siga adiante, é obrigatório que haja pelo menos 342 votos “Não” (ISTO É)



O VERDADEIRO LAVA JATO E O POBRE DONO DO DINHEIRO



O “laranja” do posto da Lava Jato
Um homem que usa roupas “puídas e manchadas” é dono de hotéis e empresas de fachada. A PF o trata como testa de ferro da família Chater, dona do Posto da Torre, que deu origem à Operação Lava Jato, e que agora é acusado de movimentar ilegalmente US$ 2 bilhões
É uma pessoa muito humilde, sem vaidade e ostentação. Esse é seu Sebastião Corrêa, segundo seu advogado. De fato, ele é um homem de idade avançada, que mora num apartamento de um hotel decadente em Brasília, o Bay Park, no qual a PF encontrou “mobiliários simples e um tanto desorganizados”, além de “poucas peças de roupas puídas e manchadas”. Mas foi lá também que os policiais tiveram uma surpresa. Em meio à bagunça do lugar, a PF apreendeu US$ 25 mil e R$ 129 mil em dinheiro vivo num cofre, moedas pelo chão e uma caixa com R$ 5 mil em notas de R$ 2, assim como um revólver 38 com seis balas. Foi com esse paradoxo que a PF descreveu Sebastião Corrêa em seu relatório de busca e apreensão realizada em 26 de abril, quando o prendeu em flagrante por posse irregular de arma de fogo – ele foi solto no mesmo dia após pagar fiança de R$ 1 mil.
Os agentes da PF foram até o Bay Park, à beira do Lago Paranoá, no Setor de Hotéis e Turismo Norte em Brasília, como parte da Operação Perfídia, que investiga a atuação empresarial do genro de Sebastião Alves Corrêa, Tony Chater, e a irmã dele, Cláudia Chater – ambos são primos do doleiro Carlos Habib Chater, condenado a dez anos de prisão pelo juiz Sérgio Moro na Operação Lava Jato. Chater é dono do Posto da Torre, em Brasília, onde funcionava uma casa de câmbio e um lava jato de automóveis, que acabou emprestando o nome para a Operação Lava Jato, a maior devassa ao meio político da história do País. No hotel, os agentes encontram o empreendimento em situação de “abandono” e “com mais da metade do complexo desativado”, de acordo com relatório obtido por ISTOÉ. Apesar disso, nove prédios com total de 810 apartamentos estão em construção no local.
A Operação Perfídia investiga documentos apreendidos com a família Chater que apontam que eles “lavaram” mais de U$ 2 bilhões para políticos de Brasília, cujos nomes ainda estão sendo investigados. E a PF quer saber porque o Bay Park, que aparece nessa investigação, está em nome de Sebastião, um homem que ainda usa uma velha TV com tubo em seu apartamento. Para a PF, ele é “laranja” dos familiares do dono do Posto da Torre.
Mas, afinal, o que é o Bay Park? A reportagem obteve documentos da PF revelando que ao menos quatro empresas funcionam no mesmo endereço do Setor de Hoteis e têm o nome fantasia ou endereço eletrônico indicando “Bay Park” perante a Receita Federal: Brasil Hospedagens, Correia Hospedagem, Marina Tour e Lago Paranoá. As duas primeiras estão em nome de Sebastião e a terceira já esteve em nome dele. A Marina está em nome de Arolita, a filha de Sebastião, e do marido dela, Tony Chater. A Lago Paranoá está registrada em nome de Arolita e da prima Raimunda Neves. O emaranhado de empresas logo foi percebido pela PF. “Foi constatado que a família possui um estranho hábito de constituir empresas e alternar seus quadros sociais entre os familiares, encerrando e criando razões sociais distintas para explorar o mesmo segmento com o mesmo nome fantasia”, analisa o relatório do delegado Renato Pagotto.
Quem é dono do Bay Park?

Segundo a PF, Sebastião “tem ou já teve participação societária na maioria das empresas do grupo” investigado na Operação Perfídia. A hipótese dos agentes e delegados é que ele “supostamente participa da abertura de empresas de fachada e da movimentação financeira do grupo”. No relatório de busca e apreensão, os policiais afirmam que Sebastião “controla precariamente a contabilidade da empresa Bay Park Hotel”. No mesmo dia 26 de abril, houve buscas contra o filho dele, Airam Corrêa. “Ficou evidente que o padrão de vida ostentado por ambos os alvos de investigação é infinitamente inferior ao volume de recursos movimentados pela família e suas empresas”.
E quem é o dono do Bay Park? O advogado de Sebastião, Arolita e Airam, Luiz Philipe Resende, diz que o hotel é da empresa Lago Paranoá, pertencente à mulher de Tony. Sebastião administra essa firma? “Diretamente não”, responde o advogado. Segundo ele, o homem leva vida simples e não tem nenhum sócio ou investidor informal. “Ele trabalha 24 horas, é incansável, tudo o que ganha é reinvestido”, descreve. “Ele não tem vaidade, tem vontade de trabalhar e fazer patrimônio. É isso que tem feito a vida toda”. Mas, para a PF, a situação de Sebastião não é bem essa. Ele é suspeito de ser “laranja” da família Chater e de estar sendo usado para “lavar” dinheiro de operações fraudulentas, que encobrem quem mandou para o exterior pelo menos U$ 2 bilhões nos últimos tempos.
A PF tenta descobrir qual a relação do Bay Park com o resto da Operação Perfídia. Philipe Resende e o advogado de Tony e Cláudia, Ennio Bastos, dizem que não há ligação. Na casa de Cláudia, foram encontrados documentos mencionando o envio de cerca de US$ 5 bilhões da Venezuela para a Dinamarca. Mas Bastos afirma que aquilo era apenas um “modelo de contrato” que se encontra na internet. A assessoria da PF afirmou à ISTOÉ que a Perfídia “é uma investigação em andamento e na qual foram encontrados documentos que carecem de explicação”. Cláudia Chater foi solta pelo juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara, em 6 de julho. Segundo Bastos, ela e o irmão foram envolvidos indevidamente no caso. “É uma peça de ficção científica”, critica. Por telefone, Tony Chater negou quaisquer ilegalidades e afirmou que a Operação Perfídia não tem provas contra ele. A PF diz que este caso da família Chater pode se transformar numa nova operação, tão importante como foi a Lava Jato. É esperar para ver.
O Bay Park, à beira do Lago Paranoá, fica no Setor de Hotéis e Turismo Norte e está em situação de “abandono”, “com mais da metade do complexo desativado”. Apesar disso, nove prédios com total de 810 apartamentos estão em construção
• Ao menos quatro empresas funcionam no mesmo endereço e têm o nome fantasia ou o endereço eletrônico indicando “Bay Park”: Brasil Hospedagens, Corrêa Hospedagem, Marina Tour e Lago Paranoá. Duas estão em nome de Sebastião Corrêa, uma já esteve em nome dele, duas estão em nome da filha dele, uma está em nome também de seu genro Tony Chater
• No apartamento de Sebastião, a PF encontrou “mobiliários simples e um tanto desorganizados”, além de “peças de roupas simples, puídas e manchadas”, um revólver 38 com seis balas, sistema de segurança com câmeras, US$ 25 mil e R$ 125 mil em dinheiro vivo
• Para a PF, Sebastião “controla precariamente a contabilidade da empresa Bay Park Hotel, mas “o padrão de vida ostentado” foi considerado “infinitamente inferior ao volume de recursos movimentados pela família e suas empresas”

sexta-feira, 28 de julho de 2017

"O JUIZ ´SERGIO MORO É QUEM DEVE EXPLICAÇÕES"



‘Certeza da minha honestidade é que não depositei na Suíça’, diz Lula
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) negou na manhã desta sexta-feira, 28, que tenha que dar explicações sobre os R$ 9 milhões de uma conta no BrasilPrev, do Banco do Brasil, montante bloqueado por Moro. “Eu não tenho que explicar nada”, disse. “Tenho 76 palestras feitas no exterior. O dinheiro entrou pelo Banco Central, está depositado no Banco do Brasil. Não tem conta na Suíça, a certeza da minha honestidade é que eu não depositei na Suíça”, disse à rádio Som Maior, de Criciúma, Santa Catarina. O ex-presidente afirmou, ainda, que o juiz é quem “tem que explicar porque bloqueou um dinheiro que está na previdência privada”.
O petista voltou a dizer que a sentença não é baseada nos autos do processo e que a decisão do magistrado foi baseada na “pressão da imprensa”. Lula sugeriu, novamente, que a condenação teria a intenção de tirá-lo do pleito em 2018. “Se eles querem tentar evitar que eu seja candidato em 2018, essa não é a melhor forma. A melhor forma é tentar encontrar um candidato bom de outros partidos para não deixar eu ganhar as eleições”. O ex-presidente também citou as pesquisas de intenção de voto, que indicam seu nome à frente de outros potenciais candidatos.
O ex-presidente não foi questionado sobre a prisão do ex-presidente do Banco do Brasil e do Petrobras, Aldemir Bendine, nesta quinta-feira, 27. Homem de confiança do petista, Bendine se tornou presidente do Banco do Brasil em 2009 e assumiu o comando da Petrobrás em 2015, após nomeação da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
Caravana
Lula afirmou que vai começar uma caravana, em três semanas, pelo Nordeste do País. Segundo o petista, a viagem começará no dia 17 de agosto pela Bahia e levará 21 dias até chegar ao Maranhão.
“Nós vamos fazer campanha, sendo candidato ou não. Nós vamos andar pelo Brasil”, disse Lula. “Eu vou começar uma viagem pela Bahia e terminar no Maranhão. Serão visitados 10 estados (do Nordeste), depois eu quero fazer no Sul e no Sudeste, quero fazer no Centro-Oeste, no Norte do País”, disse o ex-presidente.
Ainda segundo Lula, que disse que a viagem seria para ver “como eles estão estragando o País”, o roteiro não inclui trajetos de avião. “Quero viajar de ônibus, de carro, de trem, de barco, que a gente possa ter mais acesso ao povo”, disse.
O petista jogou para seu partido a responsabilidade de se candidatar a 2018. “O PT tem que querer que eu seja candidato, devem ter outras pessoas querendo ser candidatos, afinal de conta o PT tem cinco governadores de estado, vários senadores, vários deputados”, disse, sem citar outro possível presidenciável em seu nome.