Na manhã do feriado do Dia do
Trabalhador, o presidente Michel Temer acordou com uma ideia. Resolveu visitar,
vislumbrando ver reconhecido seu gesto de solidariedade, o local onde os
bombeiros esfriavam os escombros do edifício que desabara horas antes no centro
de São Paulo. Bastou Temer tocar os pés na calçada ainda morna para que a
maioria dos recém-desabrigados começasse a berrar e entoar palavras de ordem em
uníssono. As mais simpáticas eram “Fora, Temer” e “Golpista”. Em poucos
minutos, a comitiva presidencial foi escoltada por seguranças até o carro
oficial — atingido por chutes e pancadas. Felizmente, a perua Edge preta era
blindada.
Assustado e parecendo sinceramente surpreso com a reação do povo, Temer
ligou para um de seus principais conselheiros. “Cometi um erro”, reconheceu o
presidente, verbalizando o óbvio. Do outro lado da linha, o marqueteiro Elson
Mouco Junior, o Elsinho, tentou tranquilizá-lo com platitudes: “O senhor foi ao
território do Guilherme Boulos (líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto),
qualquer político seria hostilizado. Mas poderia ter conversado com o
governador para ter articulado uma saída mais tranquila”, disse delicadamente.
Temer assentiu. Ninguém mencionou a verdade incômoda: a de que o presidente da
República, cujo governo é aprovado por apenas 5% da população, não tem a mínima
condição política de se aventurar fora dos palácios de Brasília.
Elsinho Mouco não é um marqueteiro de primeira linha. Não tem grandes
campanhas no currículo. Nenhum candidato venceu uma eleição graças a sua
inventividade publicitária ou engenhosidade política. Não tem a conta bancária
de feras do marketing eleitoral. Tampouco é reverenciado entre os pares do
ramo. Suas ideias, não se pode negar, são originais. Também são polêmicas,
parecem apressadas, algumas soam engraçadas, e outras, inconsequentes.
Elsinho não vende criatividade nem entrega vitórias. Ele oferece algo tão
poderoso quanto: vende trabalho e entrega lealdade. Comporta-se como um
lobista, que aprendeu a decifrar a alma dos políticos. Age como alguém que
precisa conquistar a confiança do cliente, cortejando-o com simpatia incomum,
disponibilidade irrestrita e fidelidade inquebrantável.
Há 15 anos serve Michel Temer em campanhas eleitorais. O presidente, um
político que preza imensamente a lealdade e os salamaleques do poder, encontrou
seu conselheiro perfeito. A proximidade de ambos não é meramente profissional.
Apesar de não possuir cargo formal no governo, Elsinho é o único marqueteiro da
história do Brasil que tem gabinete no Palácio do Planalto. Fica no 4º andar,
próximo das salas dos ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco
(que ocupava a Secretaria-Geral da Presidência até outro dia). Ele é contratado
indiretamente para cuidar da comunicação do governo por meio da empresa Isobar,
que trata das redes sociais da Presidência — o que justificaria a sala com
secretária. O espaço foi uma exigência contratual do próprio Temer, conforme
disse em entrevista por e-mail a ÉPOCA.
Elsinho compõe o trio que aconselha Temer em assuntos ligados a sua imagem
e a sua comunicação. Os demais são o secretário de Comunicação Social, Márcio
Freitas, e o onipresente Moreira Franco, hoje ministro de Minas e Energia.
Aconselha, mas não significa que seja obedecido — como se viu no episódio da
visita ao prédio que desabou em São Paulo. Temer costuma seguir seus instintos
e princípios. Decide, de fato e com frequência, sozinho. Ainda assim, Elsinho
tem os ouvidos do presidente. As ideias e as campanhas que saem do Planalto
passam por ele.
