Bancada da Bala, Boi e Bíblia impõe ano de retrocesso para mulheres e indígenas (Fonte: EL PAIS)
Ala conservadora do Congresso aproveitou situação delicada de Temer para barganhar apoio para suas pautas
Proibição do aborto em caso de estupro, posse de armas para quem vive no campo, restrições à demarcação de terras indígenas e flexibilização do que é trabalho escravo... O ano de 2017 foi marcado pelo avanço de vários projetos e pautas conservadoras no Legislativo, a maior parte encampada pela bancada BBB (Bala, boi e bíblia), apelido dado às Frentes Parlamentares da Segurança Pública, Agropecuária e Evangélica. Contando respectivamente com 299, 226 e 198 deputados, elas surfaram na onda moralista que atingiu o país - e que recentemente incluiu o boicote a exposições de arte e a defesa da malfadada cura gay. A bancada BBB, que já serviu como tropa de choque e escudo para o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) em 2015 e ajudou a derrubar a presidenta Dilma em 2016, agora, em 2017, cobra a fatura e barganha com o Planalto para ver algumas de suas bandeiras avançarem.
Com seu mandato em perigo, o presidente da República, Michel Temer, precisou negociar com os deputados como pôde para conseguir enterrar as duas denúncias apresentadas
contra ele pelo Ministério Público Federal - e ainda conseguir aprovar
parte de suas reformas. Este desespero do Planalto foi bem aproveitado
pela bancada BBB. Um exemplo dessa dobradinha entre o peemedebista e os
ruralistas ocorreu em julho, quando Temer assinou um parecer da
Advocacia Geral da União (AGU) que pode bloquear novas demarcações de
terras indígenas no país. Há alguns anos os deputados ligados ao
agronegócio tentam frear a criação de novos territórios para os índios –
existe até uma Proposta de Emenda à Constituição delega ao Legislativo
este poder, em detrimento da Fundação Nacional do Índio. Com uma
canetada o presidente agradou a bancada BBB, que não precisou sofrer o
desgaste político de encampar uma medida do tipo.
A boa relação de Temer e os ruralistas foi além do decreto da AGU. Em setembro o presidente tentou abrir a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca),
na floresta amazônica, para a exploração de mineradoras. A medida foi
duramente criticada por ambientalistas (uma vez que a Reserva abrange
territórios indígenas e uma grande área de floresta intocada) e elogiada
pelo agronegócio. Frente às reações negativas, o presidente voltou
atrás e revogou a abertura da Renca para as empresas, ao menos por
enquanto.