Dono de construtora diz que entrou como ‘laranja’ e saiu como ‘pato’ de processo
O depoimento do empresário
ocorreu nesta quarta-feira, 6, na Justiça Federal em Curitiba, base da Operação
Lava Jato.
O empresário tentou acordo de
delação premiada com a força-tarefa da Lava Jato, mas um dos procuradores na
audiência esclareceu que as tratativas foram interrompidas porque ele não
atende a requisitos de um colaborador.
Demerval é réu acusado de usar
sua empresa para intermediar a compra, pela Odebrecht, de terreno onde seria
sediado o Instituto Lula, que, segundo o Ministério Público Federal, teria sido
custeado com recursos ilícitos oriundos de contratos da Petrobras.
Ele afirmou a Moro que comprou o
terreno onde seria a sede do Instituto Lula a pedido da Odebrecht e lembrou ter
sido avisado que o imóvel seria destinado ao petista.
Ele alegou ter sido combinado
que, em face da demora que teria para obter tal retorno, combinou um
adiantamento de R$ 8 milhões da Odebrecht em outro contrato no qual teria sido
subcontratado pela empreiteira, no âmbito do Prosub, o Programa de
Desenvolvimento de Submarinos.
Apesar de ter comprado o terreno,
Demerval diz que Lula acabou não gostando do imóvel e desistiu da compra.
De acordo com o empresário, ele
fez um primeiro contrato de compra do imóvel, mas a Odebrecht acabou propondo
outro termo, mais tarde, que envolvia pagamentos de R$ 234 mil reais ao
advogado de Lula, Roberto Teixeira, e mais R$ 800 mil.
“A contragosto, eu fiz esse
pagamento, primeiro porque eu já tinha gasto 7 milhões, segundo porque eu
percebi que Roberto Teixeira tinha uma intimidade muito grande com a família do
ex-presidente. Fora isso, eu poderia pagar um pouco mais para o terreno”,
alegou.
Demerval ainda disse ter
recusado fazer pagamentos, em dinheiro vivo, solicitados por executivos da
Odebrecht a Roberto Teixeira, e reclamou de pagamentos ao advogado de Lula.
“Eu paguei ao Roberto Teixeira
mesmo não tendo advogado pra mim. Ele era advogado de todo mundo, menos meu,
mas eu paguei. Saiu da conta corrente da minha empresa para a dele. Da mesma
forma que o contrato do Glaucos saiu de minha conta da minha empresa para a do
Glaucos”.
De acordo com o empreiteiro, ele
teria pedido à Odebrecht, depois da desistência de Lula, que a construtora
comprasse dele o imóvel para evitar prejuízo. E alegou que a construtora acabou
compensando R$ 7,2 milhões em uma ‘triangulação’ que envolveu a venda do
imóvel.
Demerval nega ter recebido
dinheiro fora do país e se disse enganado, já que a Odebrecht confessou
pagamentos de R$ 15 milhões no exterior, por meio de uma offshore chamada
Beluga.
“Marcelo deu duas hipóteses. Ou
induziu que alguém passou a perna na empresa, ou os colaboradores estão
escondendo quem é Beluga. Se o senhor somar o que a DAG gastou, mais a
offshore, mais R$ 192 mil valor pago, se gastou quase 25 milhões de reais. E eu
paguei 7 e está contabilizado 12 milhões”.
Questionado pela defesa de Lula
se é o dono do terreno, o empresário desabafou:
“Se o senhor me perguntasse na
época, eu afirmaria que o terreno era meu. Hoje, o desenrolar desse processo,
vendo a quantidade de pagamentos feitos à minha revelia, que eu não tinha a
menor ciência, por fora, o que eu posso dizer ao senhor é que eu fui enganado.
Hoje, eu entrei como ‘laranja’, nesse processo, e eu vejo que eu fui um pato.
Isso que eu fui”.