Ex-executivos confirmam caixa dois da Odebrecht nas campanhas de 2014
Eles prestaram
depoimento ao TSE na ação contra a chapa Dilma-Temer. Um dos executivos disse
que fez doações a pedido de Aécio Neves.
Os executivos da Odebrecht confirmaram o uso de caixa dois na campanha
de 2014, em depoimentos que prestaram na quinta-feira (2) ao Tribunal Superior
Eleitoral, no Rio de Janeiro.
O TSE investiga o abuso de poder econômico na chapa Dilma-Temer. Um
executivo disse que também fez doações a pedido do senador Aécio Neves, do PSDB
de Minas.
Benedicto Junior, ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, era a
pessoa que tratava dos compromissos políticos acertados pelo ex-presidente do
grupo Marcelo Odebrecht, preso na Lava Jato desde 2015.
Na quinta-feira, ele foi ouvido por três horas pelo ministro Herman
Benjamim, do Tribunal Superior Eleitoral, na ação que investiga a existência de
caixa dois na campanha da chapa Dilma-Temer de 2014. O depoimento ainda é
sigiloso, mas a TV Globo apurou as informações com várias fontes.
Benedicto Junior disse que, em uma reunião com Marcelo Odebrecht e
executivos da companhia, ficou decidido que o grupo ia contribuir com R$ 200
milhões para as campanhas em 2014, inclusive a presidencial.
Segundo Benedicto, dos R$ 200 milhões, R$ 120 milhões foram por meio de
doações oficiais; R$ 40 milhões por doações de terceiros, empresas ligadas à
Odebrecht, como a Cervejaria Itaipava; e os outros R$ 40 milhões foram
repassados por fora, por meio de caixa dois.
O ex-executivo, no entanto, disse que não sabe quanto desse dinheiro foi
para a campanha de Dilma Rousseff. Mas tem certeza de que os R$ 200 milhões
foram efetivamente repassados pela Odebrecht para políticos.
Benedicto Junior também contou no depoimento de quinta que, em 2014, o
então candidato à presidência pelo PSDB, Aécio Neves, pediu doações para ele.
A Odebrecht, segundo o relato de Benedicto, repassou R$ 9 milhões a
campanhas do PSDB por meio de caixa dois. R$ 6 milhões foram para três
candidatos: Antônio Anastasia, que disputou o Senado; Pimenta da Veiga, então
candidato tucano ao governo de Minas Gerais; e o aliado Dimas Fabiano Toledo,
que foi candidato a deputado federal pelo PP.
Os outros R$ 3 milhões, Benedicto Junior disse que foram repassados a
Paulo Vasconcellos, o marqueteiro da campanha de Aécio.
O advogado de Aécio, José Eduardo Alckmin, disse que o pedido de ajuda
para a campanha não era por caixa dois:
“Eu gostaria de frisar bem é que não é verdade que em algum momento
tenha se pedido contribuição de caixa dois. Nem Marcelo Odebrecht disse isso nem
Benedito Junior. Em relação a Marcelo Odebrecht foi dito que ele se lembrava
que tudo foi oficial, isso foi dito peremptoriamente. Em relação a Benedito
Junior, de forma alguma foi dito que Aécio pediu alguma contribuição de caixa
dois. Ele disse que houve um pedido de recurso. Ponto. Se isso foi atendido
dessa ou daquela maneira, isso já é uma outra questão. Houve pedido de
contribuição de campanha, mas na forma legal, usual, nada fora do que é
lícito”.
Benedicto Junior também citou no depoimento pagamentos ao senador Edison
Lobão, do PMDB. Disse que, ao assumir a obra da usina hidrelétrica de Belo
Monte, foi orientado a repassar propina apenas ao PMDB e não mais dividir com o
PT.
Antes de terminar o depoimento de Benedicto Junior, o ministro Herman
Benjamim perguntou o que poderia ser mudado no sistema político brasileiro para
evitar desvios e caixa dois.
Benedicto disse que o que provocou essa situação foi o surgimento de um
mercado com campanhas políticas milionárias. E se não existisse esse mercado, as
coisas funcionariam melhor.
Em seguida, outro ex-dirigente da Odebrecht, Fernando Reis, começou a
prestar depoimento e revelou mais detalhes do que aconteceu na campanha de
2014.
Fernando Reis, que era presidente da Odebrecht Ambiental, disse que
pagou R$ 4 milhões ao PDT para que o partido apoiasse a chapa Dilma-Temer em
2014. O dinheiro foi entregue em espécie ao tesoureiro do PDT, Marcelo Panella,
no Rio de Janeiro, segundo o relato do delator da Odebrecht. Panella foi chefe
de gabinete de Carlos Lupi, presidente do PDT, quando ele era ministro do
Trabalho.
A doação ao PDT também foi citada pelo ex-presidente do grupo Marcelo
Odebrecht durante o depoimento dado quarta-feira (1º) no mesmo processo do TSE.
Segundo Marcelo, em 2014 o ex-ministro Guido Mantega o procurou e pediu ajuda
para partidos da coligação que apoiava o governo.
De acordo com as investigações da Lava Jato, o total destinado a esses
partidos chegou a cerca de R$ 30 milhões. Os partidos que receberam essa ajuda,
segundo delatores da Odebrecht, foram, além do PDT, o Pros, o PCdoB, o PP e o
PRB. O dinheiro teria sido repassado por meio de caixa dois. Esses partidos
apoiaram a chapa Dilma-Temer e garantiram para a coligação mais dois minutos e
59 segundos de tempo de horário eleitoral.
Em seu depoimento, Marcelo Odebrecht disse que também ajudou partidos
como PR e PSD.
As respostas
A assessoria da ex-presidente Dilma Rousseff declarou que são mentirosas
as declarações de que ela teria pedido recursos a Marcelo Odebrecht e
autorizado pagamentos fora do país ou por meio de caixa dois durante as
campanhas presidenciais. A assessoria também declarou que todas as doações
foram feitas de acordo com a legislação e negou que Dilma Rousseff tenha
indicado o ex-ministro Guido Mantega a qualquer empresa tendo como objetivo a
arrecadação para campanhas eleitorais.
O JN não conseguiu contato com o advogado do presidente Michel Temer.
Na quinta-feira (2), o Palácio do Planalto divulgou nota afirmando que
Marcelo Odebrecht confirmou aquilo que o presidente Temer tem dito há meses:
que ele não falou de valores durante o encontro com Marcelo Odebrecht. Segundo
a assessoria do Palácio, o partido registrou o recebimento de R$ 11,3 milhões
da Odebrecht, montante declarado regularmente ao Tribunal Superior Eleitoral.
O senador Antônio Anastasia disse que nunca tratou com qualquer pessoa
ou empresa qualquer assunto ilícito.
A defesa de Pimenta da Veiga rebateu as acusações de que Benedicto
Junior teria afirmado que houve pagamento via caixa dois para a campanha ao governo
de Minas em 2014 e afirmou que todos os valores arrecadados foram declarados à
Justiça Eleitoral.
A defesa de Dimas Fabiano Toledo afirmou que todas as doações recebidas
pelo cliente foram informadas à Justiça Eleitoral; que ele não pediu nem
recebeu doações do Grupo Odebrecht, muito menos por intermédio do senador Aécio
Neves. E que, se usaram o nome de Dimas Fabiano Toledo, foi de forma criminosa.
O senador Edison Lobão negou que tenha recebido dinheiro de forma
irregular e afirmou que todas as doações foram declaradas à Justiça Eleitoral.
O Grupo Petrópolis, que controla a Itaipava, informou que todas as
doações seguiram estritamente a legislação eleitoral e estão devidamente
registradas.
O advogado de Guido Mantega disse que o ex-ministro jamais fez um pedido
de ajuda para partidos da coligação que apoiava o governo.
Em nota, Carlos Lupi disse que o PDT foi o primeiro partido a declarar
apoio oficial à chapa de Dilma Rousseff, em 2014, meses antes do suposto
pagamento. Lupi disse também que o PDT vai exigir que o delator comprove o que
afirmou e que é clara a tentativa de ganhar algum tipo de benefício.
O Pros declarou que todas as doações recebidas nas eleições de 2014
foram declaradas à Justiça Eleitoral.
O PRB nega que tenha recebido qualquer dinheiro de caixa dois da
Odebrecht e afirma que todas as doações foram dentro da lei.
O PR e o PT não quiseram se manifestar.
O PSD afirmou que desconhece as informações e que as doações foram
realizadas de acordo com a legislação.
O Partido Progressista e o PCdoB não retornaram nossos contatos.
O JN não conseguiu contato com a defesa de Paulo Vasconcellos.
